Venezuela à beira do abismo

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O chavismo perdeu toda a credibilidade e só pressões de Brasil e China podem salvar país / Foto: Agência Estado /
O chavismo perdeu toda a credibilidade e só pressões de Brasil e China podem salvar país / Foto: Agência Estado /

A essência das negociações entre representantes de Venezuela e EUA no Haiti é um truque em que a cabeça do opositor preso Leopoldo López seria trocada pela do presidente da Assembleia Nacional venezuelana, o chavista Diosdado Cabello. Em termos claros, Washington proporia que as investigações sobre o suposto narcotráfico de Cabello fossem suspensas se Caracas soltasse López antes das eleições.

O homem forte do chavismo ­ e presidente de facto da Venezuela ­ seria trocado pelo homem forte da oligarquia venezuelana e a reconquista neoliberal americana. Thomas Shannon, representante dos EUA, nesse cenário, proporia a Cabello: “Se não aceitar, passará o resto de sua vida num cárcere nos EUA, como Noriega. Porque, de todas as maneiras, a situação perderá as eleições de dezembro e depois as eleições presidenciais, então vamos agarrá­-lo. Colabore”.

No fim de 2013, dois oráculos da geopolítica recomendaram ao presidente Nicolás Maduro estratégias diferentes para assegurar o futuro chavista. Um deles recomendou o uso da força do Estado para controlar a direita. Era uma opção estratégica possível, desde que combinada a reformas socioeconômicas necessárias. Mas, separando a repressão das reformas, o governo começou a afundar. Perdeu suas bases sociais e ficou com o frágil apoio das baionetas.

Moderação

À diferença do primeiro oráculo, o segundo propôs a aliança com a burguesia. Entretanto, as pitonisas do Palácio de Miraflores não se deixaram impressionar pelos encantos social-­democráticos da colaboração das classes e a menosprezaram. O cenário resultante do imobilismo governamental e da deterioração socioeconômica foi aproveitado de maneira inteligente pelo imperialismo, que conseguiu armar uma agressiva frente mundial conta o governo da Venezuela que vai do Ciadi (Centro Internacional de Arbitragem de Disputas sobre Investimentos) e Desmond Tutu até amplos setores da classe política brasileira e da direita mundial.

Em política e diplomacia, o simbolismo e as formas expressam relações de poder. O fato de as negociações, que entram em sua fase decisiva, se realizarem no Haiti ­ e não em Cuba, no Brasil ou na Unasul ­ é significativo. Reunir­-se no Haiti com funcionários de Washington é como reunir­-se no quartel-­general da CIA em Fort Langley, Virginia.

Desde a ocupação militar americana de 1914 a 1934, realizada pelo presidente “pacifista” Woodrow Wilson por solicitação dos bancos, Washington manteve a primeira terra libertada da América num cenário dantesco. Todas as tentativas de autonomia e desenvolvimento nacional foram sufocadas com sangue, como por exemplo quando, em 2004, o presidente seguidor da Teologia da Libertação Jean-Bertrand Aristide foi sequestrado por Washington e deportado num avião para a África do Sul. O mesmo modelo de sequestro e deportação foi reservado ao presidente hondurenho Manuel Zelaya, em 2009. Em 2010, quando o presidente haitiano René Préval procurou aplicar políticas moderadamente desenvolvimentistas e com a opção para os pobres, Washington e as potências europeias mandaram-­no tomar um avião e ir embora. O mensageiro foi Edmond Mulet, encarregado da missão da ONU (Minustah) no Haiti. O presidente recomendou: “Precisamos colocá-­lo num avião e retirá-­lo do país”. Préval se negou, mas não pôde impedir que o partido e o candidato mais popular fossem contidos. Um cantor e admirador do sangrento tirano Duvalier foi imposto por Washington e seus títeres europeus. O fato de o presidente de facto da Venezuela e a chanceler tenham aceitado ir para esse lugar emblemático do poderio militar americano demonstra a extrema debilidade da troica governante.

Riscos

O principal assessor internacional de Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, adverte que a situação na Venezuela é “complexa” e um atrito com o Brasil poderia até dificultar “o processo” das negociações de paz entre Bogotá e as Farc na Colômbia, comprometendo o “funcionamento do Mercosul e da Unasul”. Pode-­se tentar resolver a situação de tensão via Unasul, mas é preciso ter cuidado. Há o risco de um conflito para o povo venezuelano, “com muitas mortes e sofrimento”. Garcia expressou com clareza os objetivos de Washington e os enormes custos humanos decorrentes de um desenlace violento da situação. O que fazer então?

A Venezuela é mais uma frente de agressão na guerra global de Washington contra a China e a Rússia, assim como Hong Kong, Xinjiang, Ucrânia, Iraque e Síria. Artilharia na Ucrânia, terrorismo “fundamentalista” em Xinjiang e contrarrevolução colorida em Hong Kong e na Venezuela não passam de diferentes facetas de uma estratégia unificada de subversão imperialista em diferentes teatros de guerra.

Nessa arena de gigantes, os frágeis governos latino-­americanos, com exceção do Brasil, não têm a menor influência. Diante da extrema debilidade da troica paralisada e do xeque-­mate americano prestes a ocorrer, somente a ingerência da China ­ em combinação com o Brasil ­ poderá mudar o rumo na Venezuela.

É um contrassenso que uma superpotência mundial não interceda ativamente nos assuntos internos de outro Estado para proteger seus interesses ­ ainda mais quando esse Estado está sendo atacado pela principal potência que fere o direito internacional. Na ordem global social­-darwinista em que vivemos, o respeito pela não intervenção ­ prescrito pelo direito internacional ­ só favorece os interesses do imperialismo ocidental. A ausência de uma intercessão decidida da China na Venezuela, como no caso da Líbia, só produzirá outro triunfo geopolítico do complexo militar­industrial e dos bancos americanos e um enfraquecimento extraordinariamente perigoso de todo o processo bolivariano.

Intervenção

A China pode perder US$ 60 bilhões de dólares na Venezuela, ou seja, US$ 20 bilhões mais do que na Líbia. E somente empréstimos adicionais de Pequim poderão evitar a moratória externa de Caracas no início de 2016.

Tal é o poder de intercessão que Pequim deverá usar para proteger seus interesses diretos e geopolíticos. Em troca, seu governo deve exigir um programa econômico de transição, organizado pelas equipes econômicas de Rafael Correa e Evo Morales, com a participação dos economistas venezuelanos Felipe Pérez e José Guerra. Mas, considerando que o desgoverno venezuelano perdeu toda credibilidade,
mesmo o melhor programa econômico não terá sucesso se não houver uma mudança radical de gabinete.

Essa mudança não poderia vir de maneira democrática do interior do “chavismo”, pois a troica controla todas as engrenagens da situação ­ e parece decidida a arrastar consigo todo o povo para a catástrofe. Portanto, somente a China (e o Brasil) terá o poder de intercessão necessário para forçar as duas mudanças exigidas.

Uma virada pragmática e um novo governo nacionalista que não carregue o fracasso e o total desprestígio do governo de Cabello-Maduro-­Arreaza, talvez consiga equilibrar a correlação de forças nos cerca de seis meses que faltam para as eleições parlamentares de 6 de dezembro. Aproveitando eficazmente o poderoso aparato de propaganda do Estado venezuelano, um novo governo dotado de credibilidade e de um programa talvez ainda possa salvar os interesses da maioria do país. Do contrário, a tenebrosa profecia de Marco Aurélio Garcia sobre “muitas mortes e sofrimento” poderá tornar­-se realidade.

HEINZ, DIETERICH, ESPECIAL PARA A AGÊNCIA ESTADO / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA – EX­ASSESSOR DE HUGO CHÁVEZ, É COORDENADOR DO ‘WORLD ADVANCED RESEARCH PROJECT’ (WARP) BERLIM­CIDADE DO MÉXICO­XANGAI

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