O fim do charme Chavista
Como era de se esperar a excessiva concentração de poder nas mãos do presidente Hugo Chávez já provoca danos irreversíveis a sua imagem e desacertos em seu governo. Os seus críticos mais ferozes afirmam que as horas estão contadas para seu fim e mesmo os mais otimistas asseguram que está enterrado o seu plano de ficar 30/40 anos no poder e repetir assim o principal feito de seu maior ídolo, Fidel Castro.
O mais provável é que nas eleições parlamentares de setembro próximo, se não fique sem a maioria, Chávez terá – pela primeira vez – algumas dezenas de parlamentares para minar seu governo e, assim, quando chegar 2012 e ele tentar mais um mandato, dificilmente conseguirá esse feito.
Essa normalidade só ocorrerá, por um lado, se Chávez maneirar o braço e dar uma cara mais democrática à sua administração – hoje mais parecida com um regime extremista ditatorial e estatizante que vem realizando milhares de experiências que não deram certo em lugar nenhum do mundo – e, pelo outro, se a oposição e a sociedade venezuelana tiverem saco para aguentar até setembro (eleições parlamentares) e depois mais dois anos para sacar Chávez pela via democrática (voto).
Ao dividirmos os últimos 100 anos, veremos que os venezuelanos tiveram 50 anos de governos militares, 40 anos de “democracia” civil e 10 anos de Governo Chávez. A exemplo das outras nações latino-americanas, a Venezuela sempre foi roubada e saqueada, mas nunca em sua história, nem nos chamados “anos de chumbo” – a perversa onda militarista que varreu a América do Sul – o país viveu tantos tempos de incertezas e com ares tão pouco democráticos.
Por ser o quinto maior produtor de petróleo do mundo, portanto uma Nação rica, a Venezuela não exporta imigrantes ilegais e mesmo que internamente conviva com injustiças sociais, sob alguns aspectos ainda é um oásis. Eles compram gasolina a 7 centavos de Bolívar. Assim, enquanto no Brasil com R$ 100 colocamos meio tanque num veículo, com esse mesmo valor eles comprariam 4 mil litros de gasolina, algo suficiente para rodar meses.
Apesar de ser uma Nação rica, a maioria absoluta dos venezuelanos vive na extrema pobreza, a saúde não é universalizada, o ensino fundamental, médio e superior mal distribuídos e enquanto os filhos da classe média se formavam na Europa e EUA, mesmo nos grandes centros urbanos cursar uma faculdade não fazia parte do sonho médio dos venezuelanos.
A riqueza do Petróleo, por mais que o Estado tenha o controle, sempre acaba sendo distribuída entre os ricos e donos de um padrão de vida invejável. Nesse universo, surgiu Hugo Chávez prometendo manter o Céu da classe média e encurtar a distância entre os ricos e os pobres, mas ele não conseguiu nenhuma coisa nem outra e hoje, literalmente desagrada a todos os segmentos sociais da Venezuela, exceto o seleto grupo que deixa a riqueza venezuelana ainda mais restrita nas mãos de poucos.
Assim, entre uma atitude surpreendente e outra ainda mais imprevisível Chávez chega ao 11º ano de seu Governo, sem a garantia de que chegará até o final dele, muito menos se irá se reeleger em 2012.
Se por um lado Chávez distribuiu melhor uma pequena parte da riqueza advinda do Petróleo, melhorou um pouco o sistema de saúde e iniciou um processo de universalização do ensino, ele tem dado demonstrações que conviver com críticas e oposição não é o seu forte e, para piorar este quadro, se tornaram cada vez mais frequentes as denúncias de corrupção contra membros de seu Governo.
Assim, desde que chegou ao poder como a esperança do povo venezuelano e possível referência latino-americana, Chávez está experimentando as primeiras críticas sérias, reais e fundamentadas e sua reação tem sido a pior possível. Para piorar ainda mais sua situação, ele enfrenta uma inflação que chegará a 30% nos próximos dias; teve que desvalorizar sua moeda em quase 100%; tenta forçar um impossível congelamento de preços; dá prosseguimento a uma onda estatizante em diversos setores da combalida economia e até São Pedro parece estar de saco cheio mantendo uma seca há meses, o que tem provocado uma baixa no nível das duas “artérias” (Rios Orinoco e Caroni) e uma consequente queda na produção de energia do complexo de Guri/Macágua, responsável por mais de 80% da energia consumida na Venezuela. Embora a oposição diga que ele é o culpado por que em 11 anos de Governo não investiu um centavo em novas formas de geração. Um dos orgulhos venezuelanos é ter energia na mais longínqua ilha.
2010 – ano infernal
O inferno astral de Chávez parece que está só começando e a ONG Venezuela Awareness Foundation (VAF), com sede em Miami, divulgou um comunicado informando que a Venezuela é o país latino com o maior número de presos políticos (47) só perdendo para Cuba. Entre estes presos estão lideres estudantis, ex-prefeitos, empresários, lideranças políticas, ex-aliados de Chávez e até figuras emblemáticas como o produtor rural Franklin Brito, preso incomunicável num hospital do Exército e dado como louco, apenas porque não concordou com a desapropriação de sua propriedade que ele provou ser produtiva.
Além dos presos políticos, também chama a atenção os exilados políticos em pleno século 21. Estão nesta condição o ex-governador de Zúlia e adversário de Chávez nas últimas eleições, Manuel Rosales, e outros políticos de oposição. No caso de Franklin Brito, seus familiares recorreram à OEA e obtiveram uma vitória para que médicos particulares o visitassem. Chávez não atendeu a essa recomendação, em mais um capítulo da conturbada relação dele com governos e instituições internacionais.
Chávez vê no setor privado inimigos apostos, por isso tem fechado e desapropriado hotéis, cassinos, supermercados, redes de supermercados, etc. Recentemente tirou dos donos um grande hotel em Puerto Ordaz, o Hilton de Margarita, o Sambil Candelária de Caracas, a rede de supermercados Casino e após a mega desvalorização do Bolívar a rede de supermercados Exito de capital francês e colombiano.
Desastre econômico
A popularidade de Chaves ainda é relativa nas classes D e E, onde ele mantém programas sociais como doação de comida, mas os demais segmentos afirmam que sua política econômica é um desastre. Quando Chávez assumiu, 1 dólar valia menos de 600 bolívares (Bolívar Forte) e no câmbio popular a relação é de 1 dólar por 4.300 bolívares. No câmbio negro 1 dólar não custa menos que 5.000 bolívares.
Em dezembro de 2009, Chávez anunciou a criação de dois câmbios: 2.600 para setor público e 4.300 para os demais setores. Mas isso pode esvaziar ainda mais os cofres da PDVSA, a estatal do petróleo venezuelano que banca todos os sonhos e devaneios de Chávez. A empresa está sendo obrigada a repassar diariamente milhares de dólares que entraram no país a 2.60, mas o Governo não está levando em conta que os custos de produção não são controlados pro decretos e que assim chegará uma hora em que a estatal não suportará a carga.
A classe média prevê que nos próximos dois anos estará mais pobre que nos dez anos anteriores do Governo Chávez. Apesar de tudo isso, há boas notícias: o povo venezuelano parece que está acordando de um sonho profundo e começa a reagir; jornalistas começam a criticar mais abertamente; os exilados e presos políticos já são destaques diários na imprensa local e mundial; tem surgido lideranças anti-Chávez todos os dias; os partidos de oposição têm se fortalecido e, principalmente, a população está completamente desiludida com o enfadonho discurso de Chávez.
Hoje alguns jornalistas já pedem abertamente a renúncia de Chávez, mas por enquanto ele tem se preocupado só em aumentar seu próprio poder. Entretanto, a realidade composta de apagões, racionamentos de água e comida, denúncia de corrupção e uma perseguição implacável contra seus opositores tem deixado a sensação de que está em curso uma contagem regressiva para o fim do Chavismo.
Chávez governa a Venezuela com mão de ferro e sozinho; a Assembleia Nacional é uma grande piada; o judiciário é uma extensão do ditatorial Poder Executivo, há um quarto poder denominado “poder eleitoral”, criado sob medida para proteger os candidatos oficiais e perseguir a oposição. Mas ridículo mesmo é o que chamam de quinto poder, algo equivalente ao Ministério Público, que existe com a única finalidade de perseguir os opositores ao Governo Chávez.
Cenário é de incerteza plena
Hugo Chávez começa a colher o mal que plantou em dez anos de poder absoluto e, pela primeira vez, os venezuelanos parecem ter acordado e ensaiam uma reação. A perseguição implacável de Chávez ao mais antigo canal de TV (RCTV) nunca foi digerida pela população e agora, quando ele deu o golpe de misericórdia contra esse importante meio de comunicação, a população (desempregados, opositores e principalmente os estudantes universitários) saiu às ruas.
Como era de se esperar, Chávez mandou a polícia descer o cassete e imediatamente dois jovens foram assinados pela polícia chavista – um deles, de apenas 15 anos. Os protestos mais organizados aconteceram na cidade de Mérida, onde Yosinio Carrillo Torres, de 15 años, entrou para a galeria dos mártires. A outra vítima foi um estudante de medicina, de 28 anos, líder estudantil. Mérida, Caracas, Barcelona, Puerto La Cruz e dezenas de outras cidades foram palcos de protestos organizados através de sites de relacionamentos como orkut, msn, twitter, etc.
A reação de Chávez é a esperada: mandar a polícia endurecer o jogo e ameaça tomar as faculdades privadas tornando-as públicas, acusando os seus dirigentes de tramarem contra seu Governo. Chávez tem arranjado briga com todo mundo – reis, presidentes, primeiros ministros, bispos – e hoje parece ter como aliada apenas a maioria dos militares venezuelanos, fato que o mantém no poder. Quando ocorrer o contrário, ele poderá experimentar do próprio veneno, já que ele próprio é um militar e antes de sua “democracia” tentou chegar lá através de um golpe.
Marcos Valência – E-mail: marcosvalência@gmail.com
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Blogueiro, jornalista e radialista. A sequência é intencional e representa o nível de importância da atuação de Wirismar Ramos no mundo do webjornalismo. Pós-graduado em Comunicação Social - Assessoria de Imprensa e Novas Tecnologias, Wirismar Ramos costuma dizer que não suporta, em sua vida profissional, atitudes que demonstrem falso moralismo, falsidade, traição, incompetência e preguiça.