O Big Brother

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A República brasileira ainda não chegou lá, mas falta pouco. Se o governo Lula perdurar por mais quatro anos, ainda que mascarado na pele de sua possível sucessora Dilma Rousseff, tudo indica que alcançará facilmente o avançado estágio previsto na obra orwelliana intitulada “1984”.

Definitivamente, o país caminha a passos largos rumo à instituição do Big Brother (não a novela global desmedida). Se não houver um basta, o que, na melhor das hipóteses poderá acontecer já nessas eleições de outubro, esse será mesmo um caminho sem volta.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, que completou nesta terça-feira seus vinte anos, trouxe inúmeros avanços na questão da infância e juventude. Medidas necessárias, até. Mas também pisou na bola em outros aspectos.

Um deles foi o Estado se arvorar a definir que os pais não podem nem devem mais criar os filhos como quase todos os cidadãos de bem com mais de 50 anos foram criados: trabalhando.

Só para citar um exemplo, Mário Amato, o grande empresário paulista, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), começou a trabalhar ganhando salário ainda na infância, incentivado pelo pai.

Hoje, uma mãe não pode nem pensar em deixar o filho lhe ajudar naquilo que ela faz profissionalmente – tomar conta de uma bodega que vende frutas, por exemplo. A criança – já com seus 10, 12 anos de idade – é obrigada a ficar em casa sozinha (a família não pode contratar uma empregada), enquanto a mãe e o pai estão no trabalho.

Como não tem o que fazer e nem ninguém a lhe pegar no pé, esse menino se torna presa fácil para o traficante de plantão. Fácil, fácil se tornará um menino de rua, que, inicialmente, voltará para casa antes que a mãe e o pai retornem do trabalho.

Não demora muito, ele perde o referencial e passa cada vez mais tempo na rua. Logo-logo se torna um bom e competente “avião” (distribuidor de drogas). Não se trata aqui de nenhuma peça de ficção. Essa tragédia se repete em muitas famílias brasileiras há vinte anos.

Como se não bastasse proibir que a criança cresça com responsabilidade, sabendo que o trabalho dignifica o homem (e a mulher), agora vem o governo, com toda pompa e circunstância, afirmar em lei que um pai não pode corrigir o filho com uma palmadinha. É demais, não?

É o olho mágico do Grande Irmão intrometendo-se – sem ser chamado –, porta adentro dos lares brasileiros, solapando de vez a autoridade do pai e da mãe. A Bíblia diz em Provérbios capítulo13, versículo 24: “Aquele que poupa a vara aborrece a seu filho; mas quem o ama, a seu tempo o castiga”. No mesmo livro, no capítulo 23, versículo 13: “Não retires da criança a disciplina; porque, fustigando-a tu com a vara, nem por isso morrerá”.

Enquanto esse olhar enviesado se abate sobre as famílias, elas experimentam atualmente dias de extrema penúria moral. Os filhos já não encontram mais nos pais o referencial que precisam para firmar o caráter que se quer num bom cidadão.

O governo tem lá sua parcela de culpa nesse latifúndio. Ao intrometer-se onde não lhe cabe, acaba estimulando tal catásfrofe.

FRANCISCO ESPIRIDIÃO – Jornalista (e-mail: fe.chagas@uol.com.br)

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