Dia dos Pais #FAIL

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Durante 22 anos da minha vida o segundo domingo de agosto foi um dia comum para mim. Não. Mentira. Alguns eram tristes e vazios. As sextas-feiras que antecediam o domingo do dia dos pais eram ainda mais difíceis. Na escola sempre tinha festinha em homenagem ao dia dos pais, mas eu não gostava.

Lembro-me que na 2ª série, quando eu tinha uns 7 anos de idade, quase 8, uma professora me escolheu para declamar um poema em homenagem ao dia dos pais. Neguei-me, mas ela insistiu com o argumento de que eu era a melhor alfabetizada e mais desinibida para fazer tal homenagem. Li e reli o poeminha de 6 linhas várias vezes antes da apresentação.

Numa manhã comum vesti minha roupa mais nova, minha roupa de festa. A professora cuidou dos meus cachinhos – que a época eram loiros -, passou um pouco de batom em meus lábios e ele disfarçou a tristeza do meu sorriso sem alguns dentes.

O pátio estava todo enfeitado. Flores de papel crepon, balões, cartazes, varal de cartões com desenhos mal traçados e frases mal escritas eram parte da decoração. O sol brilhava intensamente e meu coração batia devagarinho. Eu estava muito triste…

Anunciaram meu nome, a minha turma e informaram que eu era aluna da minha professora. Ao som dos aplausos fortes dos pais dos meus coleguinhas me dirigi ao centro. Fui ajudada pela professora a subir no palco improvisado com as mesas que estudávamos. Ela percebeu que eu tava gelada. Pediu para eu me acalmar, pois não sabia que não era nervosismo.

Acomodei-me no palco, segurei o microfone e olhei para as pessoas. Aqueles homens todos… Eram “pais”. Todos com os filhos no colo. Os funcionários da escola estavam apreensivos. Olhavam-me preocupados, percebiam que algo estava errado. Respirei fundo. Engoli a seco. Abri a boca e declamei o poema com a voz embargada e os olhos mareados. Sentia o peito apertar. Tão pequenina, não imaginava o que me acontecia e porque fazer aquilo doía tanto. Desci ao som dos aplausos. A professora me entregou uma lembrancinha e disse: “Toma. Pra vc entregar pro seu pai.” Olhei pra ela e já de beicinho virado, respondi: “Meu pai não veio”.

Desde então aprendi a fazer desta data algo menos dolorido. Não culpo o meu pai por nunca ter participado dessas festas, de nunca ter me dito que me ama ao menos no dia do meu aniversário, de nunca ter deixado presente debaixo da minha cama na noite de Natal e na manhã dizer que foi o Papai Noel. Não o culpo por nunca ter ficado com ciúmes dos meus namoradinhos ou orgulhoso quando passei no vestibular.

Mas culpo-me por ter me tornado indiferente a ele. Por perceber que em algum momento na minha vida, deixei de sentir algo por ele. Nem raiva, nem saudade. Nem amor, nem ódio. Simplesmente não sinto.

ÁDRIA ALBARADO – BLOG BURITI REVIEW

Comentários

2 COMENTÁRIOS

  1. Acredito que muita gente se viu nessas suas linhas..eu vi a minha história…Foi emocionate ler seu desabafo. hj tento ser o melhor que posso pro meu filho..não kero que ele lembre de mim, como alguém que nunca disse que o amava! E q nunca participou de sua vida!!

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