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Amor demais, verdade de menos

No início dos anos 90 assisti a uma palestra do poeta e escritor Eliakin Rufino. Ele tinha sido convidado pelos jovens do Movimento Leonístico, a juventude do Lions Club Internacional, e o tema era mais do que apropriado: “A história da formação política e social de Roraima”. Eu já morava em Roraima há quase 15 anos, mas fiquei profundamente chocado com as verdades ditas por Eliakin e que até hoje martelam em minha cabeça.

Lá pelas tantas – quando ele falava da relação dos governadores militares que chegavam a Roraima como reis absolutos do pedaço – ele disse que essa relação era de total submissão e subserviência por parte de algumas pessoas de Roraima e que – com raras exceções – quase ninguém ousava fazer oposição.

Em regra o governador chegava trazendo todos parentes possíveis e mais cachorro, gato e periquito, se instalava no Palácio do Governo e ia chamando cada um dos representantes das famílias mais tradicionais do antigo território para uma “conversinha de pé de ouvido”.

De carguinho em carguinho, aquele estranho “linha dura” – alguns com fama de mau – logo eram tratados com toda a atenção e deferência que o povo bom, trabalhador e ordeiro de Roraima a ele dedicava. Alguns até fincaram algumas raízes aqui, mas em regra ficavam apenas o tempo em que durava seus mandatos – alguns curtíssimos  – e saiam saqueando o tanto quanto podiam. Também não faltavam aqueles que saiam – literalmente – xingando o ex-território e seu povo.

Essa era a regra, afinal mais de 40 forasteiros foram nomeados governadores e nem todos tiveram o mínimo de decência que teve Hélio Campos de manter uma ligação com Roraima até os minutos finais de sua vida. A exceção a essa regra foi a chegada de alguns chamados filhos da terra ao cargo máximo.

Assim surgiu a cultura social, político e administrativa de Roraima. E não se trata aqui de nem um xenofobismo, afinal eu – como milhares de pessoas – também tive o prazer de ser recebidos com tapetes vermelho e aqui muito bem tratado.

A grande diferença é que naquela época as famílias tradicionais e a sociedade de um modo geral não tinham opção, deveriam mesmo engolir qualquer poderoso de plantão que aqui desembarcava. Assim temos uma extensa lista de ex-governadores, a maioria homenageados com nomes de ruas e avenidas, mas em mais de 90% dos casos nenhum deles fincaram raízes, deixaram algum rastro, como se diz. O que todos eles deixaram foram declarações de amor infinito. Amavam Roraima acima de tudo, mas que amor era esse que não deixava nenhum fruto, nenhuma marca.

O mesmo amor que os governadores militares disseram sentir por Roraima, mas recentemente foi resgatado por outras personalidades, assim também amaram Roraima: João Fagundes, Marcelo Luz, Moisés Lipnik, Júlio Cabral, Avenir Rosas e Rubem Villar, só para citar alguns.

Não tenho nada contra a vinda de quem quer que seja para Roraima. Eu mesmo fui beneficiado pelo modo acolhedor e carinhoso desse povo maravilhoso, cheguei em 31 de dezembro de 1984 e nesses 25 anos consegui coisas que nem em meus dias mais otimistas sonhei em obter: Ensino médio no Maria das Dores e Ana Libória, Jornalismo na UFRR, Direito na Cathedral, a Carteira da OAB, o trabalho em redações, o respeito pelos colegas e pelas pessoas, uma família, uma vida. Roraima não me deu o que tenho, Roraima me fez o que sou.

Mas a vinda de pessoas de outros estados e países não pode ser apontada como nenhum mal, afinal o mundo é uma bola, o Brasil é um continente e é de família em família que vai surgindo uma sociedade melhor. Pessoas criam raízes e se mudam em busca de melhores condições de vida. Isso é uma coisa, outra coisa são as declarações dos aventureiros que juram amor eterno, leia-se eterno até durar a boquinha, o emprego ou o cargo público confiado pelo povo bom e herdeiro de Roraima.

Assim a história se repete. Assim a parte negra da história vai sendo escrita. Marcelo Luz amava Roraima, que era objeto de amor de Lipnik, que amava Roraima o mesmo tanto que Júlio Cabral, que foi deputado federal igual Avenir Rosas, que foi embora de Roraima do mesmo modo que Luciano Moreira.

Amores que vão e que não ficam, que não deixam marcas. Assim a história de amor de Luciano Moreira por Roraima fica parecendo paixão por puro interesse, um falso amor, que durou até surgir algo mais interessante. Enquanto estava desempregado ele amava Roraima, trouxe toda sua trupe para cá e loteou importantes cargos públicos do Estado. Em um dia ele estava se reunindo em comunidades, escolas e pedindo votos para deputado federal no outro assumindo função pública em outro Estado, sem dar a mínima para Roraima ou sequer para aqueles que ainda acreditavam nele.

Luciano Moreira parecia ser diferente, intelectual, sorridente, competente, etc. Logo, logo, seria o grande coringa, exercendo funções importantes e preparando sua ida para Brasília. Lá, certamente iria se instalar e repetir a mesma trajetória de Marcelo Luz, Júlio Cabral, Lipnik, Avenir Rosas e João Fagundes, dar as costas para Roraima.

O sorriso fácil escondia algo cruel e logo as diversas faces do coringa sorridente foram mostradas. Tornou-se cara, braços, ouvidos e voz de governadores e utilizou isso muito bem, até onde pode, a ponto de se transformar numa peça fundamental em duas administrações, gozando  da plena e total confiança de governadores e transformar algumas autoridades locais em seus bajuladores e pedintes de seus favores, Ele era o cara.

Talvez a praia da polar seja mesmo uma imundície comparando com a praia do Calhau, talvez nossa Praça das águas não chegue nem aos pés da Lagoa da Jansen, mas merecíamos um pouco mais de respeito. A batalhadora governadora Roseana Sarney, também responde aos mesmos processos que provocaram a cassação de Jackson Lago e se ela perder o mandato? Luciano Moreira ocupará novamente o cargo de “professor de Deus” em Roraima? Estenderemos novamente o tapete vermelho para ele? Suas opiniões e conselhos voltarão a valer mais do que qualquer idéia dos simples mortais de Roraima? Assim a história de Roraima vai sendo escrita. Só não me peçam para eu concordar com ela.

J. R. Rodrigues – Jornalista e advogado – jotar@technet.com.br

  • Jota,

    Acho que não haverá ninguém que escreva tudo isso com tamanha lucidez. Parabéns para você e condolências para Roraima, que ainda não perdeu a síndrome do cachorinho. É só estalar o dedo.

    Espiridião

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