A charge de um jornal local, edição de hoje, chamou a atenção e me provocou o riso. Realmente, a representação é hilária: dá a conotação de que a corrupção eleitoral está em extinção e que muito em breve haverá, finalmente, eleições limpas não apenas em Roraima, ma em todo o país.
Ora, quem pôde observar todo o desenrolar do processo eleitoral deste ano sabe que não é bem assim. Infelizmente, o jogo sujo é a mola mestre da política a assim permanecerá ainda por muito tempo, apesar dos esforços da Justiça Eleitoral, do Ministério Público e da Polícia Federal em coibir os asbusos que os políticos costumam cometer nessa época.
A urna eletrônica trouxe sim, maior segurança e credibilidade ao processo eleitoral brasileiro por ser um sistema seguro e hoje copiado pela maioria dos países que têm a democracia como sistema de Governo. Mas isso só não resolve o problema. A corrupção eleitoral é uma praga que está impregnada no seio não apenas do meio político, mas também da sociedade como em geral, salvo algumas raras exceções.
Vejamos o caso da venda e compra de votos, por exemplo. Muito se tem pregado (eu mesmo já escrevi vários artigos a respeito disso aqui) que essa é uma atitude desprezível, condenável e que o correto é a lisura, a transparência e a cobrança da sociedade para que os políticos, nossos legítimos representantes no Parlamento, seja municipal, estadual ou federal, assim como os titulares do Executivo, ajam com ética, seriedade e respeito à coisa pública.
Nas ruas, nas escolas e bancos de faculdade, nos palanques, nos plenários das casas legislativas e na mídia, o discurso é um só: o político não deve comprar e o eleitor não deve vender o voto. Mas, na prática, os dois lados esquecem-se do discurso partem para o “tudo ou nada”, numa busca frenética pelo que consideram o melhor resultado. Isso pôde, mais uma vez (e em toda eleição é assim), ser comprovado nesse pleito. Já no início da semana que antecedeu o 5 de outubro, pôde-se observar intensa movimentação de cabos eleitorais nas ruas (principalmente da periferia) oferecendo vantagens aos eleitores em troca de votos.
Na quinta-feira (2) à noite, a aglomeração era grande de pessoas na frente de suas casas à espera de algum candidato com algo para oferecer em troca de voto. Cada um queria receber alguma coisa, mesmo afirmando que não votaria naquele candidato que tenta comprar o voto do eleitor por achar essa prática errada. E aí vem a pergunta: quem é mais corrupto, quem compra ou quem vende o voto? Para a Justiça Eleitoral, os dois são corruptos da mesma forma.
A movimentação foi ainda mais intensa nas noites e madrugadas de sexta-feira e sábado, não apenas de cabos eleitorais, candidatos ávidos por votos e eleitores sendentos por dinheiro, mas também da Polícia Federal em busca de flagrar os infratores. Na manhã de domingo (5), dia da eleição, em plena luz do dia, ainda era possível encontrar aglomerações suspeitas. No bairro Conjunto Cidadão, por exemplo, um carro arrancou em alta velocidade quando eu me aproximei para tentar descobrir o que estava acontecendo e o cidadão que provavelmente estava tentando vender o voto ficou todo desconfiado. Ainda foi possível perceber que ele escondia algo na mão.
Diante de tudo isso, de todas essas constatações, tenho o desprazer de afirmar que, infelizmente, o político corrupto e enganador e o eleitor trapaceiro e espertalhão são duas espécies que sobrevivem e conseguem se adequar às mais diversas situações, ou novas legislações criadas pela Justiça Eleitoral na tentativa de coibir a corrupção eleitoral. Foi-se o tempo em que o eleitor era chamado de vítima. Hoje, as espécies em extinção são o bom político e o eleitor consciente (se é que um dia existiram).
Wirismar Ramos – da Redação
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