FatoReal: Notícias, críticas, denúncias, ideias e devaneios

Feijoada? Que dor de dente

Promover feijoadas em festas beneficentes com intuito de arrecadar fundos para realizar bailes de formatura, aniversário de escola de samba e tantos outros virou moda na pequena Boa Vista. O prato – mais brasileiro impossível – agrada todos os gostos, sobretudo estrangeiros que lambem beiços a cada mordida nos toicinhos fritos.

A delícia inventada pelos escravos há muito virou comida de gente chic. Tenho uma amiga, Flora, que é freguesa da tradicional feijoada de sábado no Aipana. Mas só toma o caldinho do feijão. Mais barato? Não sei. Ela jura que é regime. Prefere gastar o “courinho de rato” nas dezenas de doses de caipirinha.

Certa está Flora: gasta pouco, se diverte e ainda arruma motorista particular para levá-la em casa. Errada estou eu e um monte de gente, que se arrisca ao abraçar causas dos outros sem ganhar em troca nem um “muito obrigado”. Pior ainda: nem um caldinho de feijão, quanto mais de feijoada.

A feijoada realizada pela primeira turma do curso de Odontologia de uma faculdade particular da cidade, no último domingo (27), no CTG, é um mau exemplo que deve servir de exemplo para as próximas turmas que planejam promover almoços para arrecadar dinheiro para suas festas de formatura.

Nesta feijoada – bem divulgada na mídia local – uma das organizadoras disse que “além da comida saborosa, feita por uma profissional [?], quem for à 1ª Feijodonto vai se divertir e dançar bastante ao som das bandas regionais Classe A [pagode] e Remela de Gato [forró]”.

De fato, a diversão começa logo na entrada. Acadêmicas desfilam pela passarela do clube com suas blusinhas personalizadas amarradas na cintura. O cabelo então, estava impecável. Parecia que tinham acabado de sair do salão. Ou será que acordaram assim?

A decoração da casa era um convite e ao mesmo tempo uma armadilha do que ainda estava por vir. A longa fila, terminava no corredor de acesso ao salão. Bem longe da mesa que estava a concorrida feijoada. Lembrou-me os tempos de NSAP – empresa que fazia o pagamento dos servidores públicos do Governo do Estado.

Quando percebi a cilada, já estava na fila como se estivesse à espera de um grande presente. Minutos antes, havia intimado uma amiga a me acompanhar. Lá estávamos eu e ela, jogando conversa fora. Ríamos. Até que a fila parou. Estranho. Fui ver o que tinha ocorrido.

Ao andar pelo menos seis metros ao lado da fila, vi uma cena típica daqueles sopões que distribuem pelas praças dos grandes centros do País: dezenas de pessoas com pratos vazios nas mãos esperando famintos para serem servidos pelo rango. Mais dois passos, encontrei gente segurando “bandecos” com porções do que deveria ser farofa – a farinha branca dava impressão de que havia saído do saco direto para a vasilha e posta sobre a mesa. Um resto de couve refogada ficou esquecida num canto. Os “pagantes” esperavam o arroz, que havia acabado naquele instante. Em dois panelões de alumínio enxergava-se o feijão. Ops! Mas não era feijoada? Num instante voltei os olhos sem acreditar no que estava vendo. Não era vertigem – apesar das quase duas horas da tarde – era real. Real e revoltante.

A feijoada na verdade era feijão preto com linguiça calabresa. Os toicinhos, orelha, rabo, pé, costelinha e lombo de porco – ingredientes indispensáveis a uma feijoada de respeito – foram “esquecidos”. Será que não conseguiram a receita em sites? O Zé Moleza bem que poderia ter dado uma mãozinha para os universitários. É bem possível que lá tenha uma tese sobre o prato mais popular do Brasil.

Intrigada, voltei à fila. Já pensando em desistir, encontro um amigo – também jornalista – que, com sorriso sarcástico, perguntou: “Vai comer feijão preto com linguiça?”. Como assim? Custei entender. “Disseram que os ingredientes eram muito caros”. Pode? Pode. Parece que em nosso Estado tudo pode.

Agora eu pergunto: se os ingredientes eram caros por que não fizeram um “churrasquinho de gato”?. Em frente à Rodoviária Internacional de Boa Vista, um trabalhador sustenta a família vendendo espetinhos a R$ 1. Lá, também vão pobres e chics. A carne é a mesma pra todo mundo.

Ao saber de tamanha cara de pau dos sábios acadêmicos, o mínimo que podia fazer, e fiz, foi sair da fila – depois de 50 minutos de espera. A próxima missão: devolver meus bilhetes e receber meu suado dinheirinho de volta.

O tratamento da recepcionista não foi diferente ao despreparo no preparo da feijoada. Ela que, “voluntariamente”, dedicava seu domingo em causa própria estava toda prosa na bilheteria improvisada. Ao ouvir a reclamação, a futura “doutora” simplesmente meteu a mão na caixa de papelão e devolveu os R$ 20 – preço das duas feijoadas. Certamente que aquele dinheiro não iria fazer falta aos mais de mil arrecadados ali – a turma anunciou na imprensa que esperava vender mais de 1.500 bilhetes. Conseguiram.

No quesito marketing, os acadêmicos se superaram. Nunca vi uma festa com esse cunho reunir tanta gente em Boa Vista. Entretanto, os jovens formandos esqueceram o principal: o respeito aos convidados. Não sabem que daqui a algum tempo – bem próximo – estarão atendendo em seus consultórios particulares ou mesmo na rede pública de saúde. E os convidados bem que poderiam ser os futuros pacientes.

Se eles não aprenderam o preceito básico da relação humana é melhor que nós tomemos cuidado. Daqui pra frente, é torcer pra que aquele velho siso não invente de doer.

Eliane Rocha – bjaflor1@com.br

Deixe o seu comentório