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Jucá x Anchieta: aliança intempestiva e fora de foco

Muito tem se discutido sobre a viabilidade e a conveniência da aliança entre o senador Romero Jucá (PMDB) e o governador Anchieta Júnior (PSDB). Como era de se esperar as reclamações e a chiadeira partem principalmente dos aliados de Anchieta, até por que quantitativamente Jucá é sozinho, se comparado com o outro grupo. Não obstante ter alguns prefeitos, vereadores, dois ou três deputados estaduais na ALE-RR e três deputados federais figurarem como seus aliados, alguns destes são lideranças autônomas e inicialmente não necessitariam ou não aceitariam um interlocutor para nortear seus comportamentos políticos
em 2010 e 2014.

Políticos como o presidente da Assembléia Legislativa, Mecias de Jesus (PR), os deputados federais Márcio Junqueira, Chico Rodrigues e o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB) são alguns dos que já manifestaram suas opiniões e nada favoráveis a entrada de Jucá no chamado grupão.

Os argumentos de cada um podem ser divergentes, mas em regra tem em comum a não necessidade de se firmar a aliança, pelo menos não agora. Mesmo aqueles que não possuem tanta resistência acham que é cedo demais. Quem pensa assim diz que: “Se era para sair antes de dezembro por que não incluíram as eleições municipais, principalmente na capital, onde o governador tinha um candidato desde o início do processo e Jucá só entrou na campanha (de Iradilson Sampaio) bem recentemente, já com a campanha em curso?” Outro discurso anti-jucá neste momento é que a união entre ele e Anchieta fica parecendo que é uma aliança de duas pessoas com medo de algo e neste caso de um adversário que ainda não tem rosto, nem formato, pois ninguém sabe como estará o tabuleiro da política local em 2010 e muito menos em 2014.

O argumento mais convincente, porém, é o de que Jucá e Anchieta ainda têm o que acertar internamente, conversar bastante com seus amigos e aliados, somar bastante os prós e os contras e somente depois partir para a aliança. Esse pensamento prevalece até mesmo para aqueles que defendem claramente o acordo.

Jucá ainda teria “contas a acertar” com a opinião pública de Roraima, a idéia de ser quase um super herói em Brasília e de não ter resolvido problemas mínimos para Roraima domina o a mente da maioria absoluta dos roraimenses. A questão fundiária, indígena, a vinda das chamadas “desgraças petistas” (MST, Sem tetos, membros de ONG’s, etc.) são todas creditadas a Jucá.

Está difícil mudar a imagem que ele próprio construiu de que é o supra-sumo do poder federal, que entra sem bater na camarinha de Lula. Num momento ele diz que é forte, poderoso e que consegue tudo para Roraima, mas quando os assuntos são: reservas indígenas, questão fundiária, etc., ele culpa os outros por isso.

Na opinião destas lideranças, esse argumento jamais vai colar, porque ainda não houve um político com tal desenvoltura e proximidade com o poder e isso é de domínio público.

“Jucá não é um Marcelo Luz, um Júlio Cabral, um João França da vida. As pessoas sabem que com um pouco mais de esforço por parte dele Roraima não estaria nessa caótica situação institucional, no dia que ele se tocar disso ele vai mudar sua postura,” afirmam.

Para quem pensa assim, o ideal é ele primeiro resolvesse essa situação, se fortalecendo e num momento oportuno anunciando um acordo com o governador Anchieta, assim ele viria forte e não como alguém que está com medo de perder a vaga de senador e que por isso aceita qualquer acordo.

Por outro lado, o governador Anchieta Júnior ainda teria acertos a fazer em sua administração; resolver problemas institucionais; evitar passos em falso com a relação com algumas categorias de servidores públicos que tem deixado o Governo na berlinda, etc. Assim, quando se consolidasse como uma liderança forte, em ascensão e internamente bem resolvido junto ao seu grupo, o governador teria a opção de costurar e compor uma aliança imbatível com vistas a 2010 e 2014, qualquer que fosse o eventual cenário.

Por fim há ainda uma corrente de opinião pública fácil de ser detectada em qualquer conversa, geralmente formada por não-políticos, onde há um número significativo de pessoas para quem a união pode ser boa para o Estado e,
por isso, tanto Jucá quanto Anchieta sabem disso e “arrisquem” tanto com essa aliança que aparentemente é intempestiva e fora de foco.

Quem está nesta terceira linha de pensamento acha que se a união resultar na solução dos graves problemas de Roraima, terá sido boa e justificada, caso contrário, ficará mesmo parecendo um mero acordo eleitoral, com vistas às eleições de 2010.

Para tirar essa impressão, ou para eliminar essa possibilidade, é necessária a conclusão dos processos de demarcação de terras indígenas; a solução da questão fundiária, com o repasse das terras para o Estado e a conclusão do processo de titulação das terras (atualmente tocado de modo franciscano pelo esforçado superintendente do Incra-RR, Titonho Beserra); o pagamento das justas indenizações das milhares de famílias que foram ou estão sendo expulsas de suas terras pela máquina petista (agora com o aval do STF de que não precisa indenizar ninguém); a destinação de terras para reassentar essas famílias e uma parada na vinda encomendada de sem terras e sem tetos de outros estados só para aumentar a tensão e a intranqüilidade jurídica no Estado.

Além destas questões, contará a favor do eventual acordo a junção de forças (Governos Federal e Estadual) para que as Áreas de Livre Comércio (Boa Vista e Bonfim) e Zona de Processamento de Exportação (ZPE) saiam realmente do papel; federalização da CER, etc.

Assim, depois das devidas operações aritméticas e políticas, o resultado poderá ser favorável, não só aos dois eventuais protagonistas, mas sim para toda a sociedade.

J. R. Rodrigues  - Jornalista (jotar@technet.com.br)

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