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Reforma ortográfica?

Confesso que não gostei nadinha da tal reforma ortográfica. Isso de escrever ideia e outros ditongos orais abertos sem acento e tirar o acento diferencial de algumas palavras, além de juntar outras compostas com hífen e eliminar o dito cujo ficou horrível. Mas tudo bem, tenho tempo para me acostumar e, afinal, todos vamos acabar escrevendo assim. Simplesmente porque é uma REGRA. E ponto final. Agora, a verdadeira e ultrajante reforma vem sendo feita há alguns anos, e cada vez mais vai colocando os tentáculos em textos e mais textos de pessoas – a maioria jovens, outros nem tanto – preguiçosas e semi-analfabetas. Normalmente começam com aqueles que já escrevem mal, pouco lêem e detestam perder tempo digitando. Talvez pensem que vão criar calos nas pontas dos dedos. Se fosse assim, se calos simplesmente fossem criados de tanto usar algum órgão, os cérebros dessas criaturas seriam os mais macios e lisinhos, sem nenhuma dobra, devido ao pouco uso.

A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dente
Tem gringo pensando que nóis é indigente…

Estou me referindo à essa mania ridícula que internautas, orkuteiros, “tuiteiros” e afins têm de abreviar e escrever errado diversas palavras. Começam com um simples e inocente “vc” (você) e terminam com um assassinato do tipo “eu fassu”. Ninguém fass nada, bando de analfabetos energúmenos, as pessoas “fazem” e você “faz” ou “eu faço”. Ninguém sabe mais que o “ç” existe! E não pára por aí! É um tal de bjks (beijocas), “num sei”, “entaum”… “tipo assim (credo em cruz), entaum vou ir lá na balada, nesse finds”. Quando leio algo assim, eu, agnóstica de nascença, mas que me declaro atéia porque a maioria dos ignorantes não sabe o que é agnosticismo (alguns confundem com os adeptos da gnose) e tenho que ficar meia hora explicando, começo logo a rezar: Creio em Deus Pai Todo Poderoso, criador do céu e da Terra…” (sim, apesar de ser uma herege, também sei o Pai Nosso e a ave-maria de cor, muito utilizados quando sonho com assombrações).

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

Sou totalmente contra. Contra abreviaturas gratuitas, escrita diferenciada, analfabetismo declarado ou implícito. Contra a preguiça e contra os modismos. Alguns dizem que as pessoas sabem diferenciar o texto de quando conversam com amigos na internet para o texto formal. Porra nenhuma. Esse tipo de gente já não lê muito, escreve muito menos e o pouco que sabe acaba esquecendo de tanto escrever errado. Sou da opinião que não se deve nem começar para não descambar. E olha que descambar é a atitude mais comum no nosso país, seja lá para o que se descambe. Sou daquelas que, para o desespero de Santo Marido, não abrevia nem palavras nas mensagens (e não msg) de celular. Elas sempre possuem no mínimo duas páginas.

A gente faz carro e não sabe guiar
A gente faz trilho e não tem trem prá botar
A gente faz filho e não consegue criar
A gente pede grana e não consegue pagar…

“Nada mais assustador do que a ignorância em ação”. Li isso num texto de Luciano Pires, e concordo com a frase. Principalmente quando me deparo com os ignorantes pelo caminho. Estava eu em pé, numa das muitas viagens de trem, voltando para casa, segurando no trem com uma mão e na outra, um livro que lia. Atrás de mim, um casal de amigos adolescentes, com o uniforme do CEFET-RJ (escola que até mesmo para entrar é preciso fazer uma prova de admissão). Não prestava atenção à conversa dos dois, mas sabe-se lá porque cargas d’água num determinado momento me interessei (vai ver que minha intuição, já enojada, farejou a burrice). Eis que ele diz para ela:

- Está errado! Por obséquio quer dizer por favor!
E ela:
- Quem te disse?
- Claro que sim, é um jeito antigo de dizer por favor, não se usa mais, mas é isso.
- Não é nada, você tá (sic) mentindo. Por obséquio quer dizer “para lembrar depois”.

Aí minha garganta fechou, a respiração falhou e quase tive um ataque de alergia (à burrice, claro). Não fosse minha presença de espírito (inspirar, expirar, inspirar…) e eu teria capotado ali mesmo. Então continuei a ouvir a conversa:

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

Dizia ele:
- Onde você aprendeu isso?
- Lá em casa todo mundo fala assim! Quando um não quer que o outro esquece (sic) algo, fala “por obséquio, desliga a luz”, por exemplo.
Puta que a pariu! E ainda deu exemplo. Minha boca já estava repuxando, querendo rir loucamente!

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

- Não, vocês estão enganados – disse o guri.
- Tá (sic) querendo dizer que meu vô, meu pai, minha mãe, todo mundo em casa fala errado? Por obséquio todo mundo sabe que vai escrito no final das carta (sic) e quer dizer para lembrar depois.

Confesso que aqui, eu, tanto quanto o amiguinho inteligente da guria, não entendemos patavinas do que ela queria dizer com “vai escrito no final das carta”. Claro que meu ouvido já estava quase colado nela.

- Como assim, no final das cartas? – perguntou ele (e eu em pensamento)
- Ué, a gente coloca o por obséquio no final, “P.S.”.

Rá!!!!!!!!!!!!! Rá Rá Rá. O que é isso, Mellll Dellllls! (Os eles é só para dar entonação, ok?). Onde o mundo vai parar. Olha, cheguei a ter palpitações. Comecei a rir ensandecidamente e, ao mesmo tempo, tentava fingir que estava rindo do livro que era muuuuuito engraçado. Meu, vai ser burra assim na casa do… Deixa para lá. Vocês perceberam quão ignorante era a guria? Primeiro, “por obséquio” significa “para lembrar depois”. Não contente, as duas expressões são abreviadas nos finais de cartas como “P.S.”. Não é “P.O.” nem “P.L.D.” e sim “P.S.”. De onde ela tirou isso?

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

Eu que já estava achando que a juventude não tem mais escapatória, que iria comprar um taco de beisebol, uma máscara preta e inaugurar um grupo de extermínio (mataria os burros e os macumbeiros, além dos crentes), fiquei menos preocupada ao perceber que o rapazinho era bem informado e aparentemente culto:

- “P.S.” quer dizer post scriptum.
A guria só faltou revirar os olhos:
- Ah, fala sério! De onde você inventou isso?
- Não inventei, é latim.
- Até parece que você sabe falar em latim!
- Não sei mesmo, mas algumas expressões a gente usa sem saber a língua. Quer dizer algo que você escreveu ou lembrou depois de escrever uma carta, ou e-mail, aí coloca lá no final com a abreviatura P.S.
- Sei, sei, olha, se é depois que escreveu tudo que coloca P.S., então é para não esquecer, se é para não esquecer é para lembrar depois, por obséquio, que dá tudo na mesma!

A gente faz música e não consegue gravar
A gente escreve livro e não consegue publicar
A gente escreve peça e não consegue encenar
A gente joga bola e não consegue ganhar…

Depois dessa conclusão digna de Kant ou Nietzche, o menino desistiu. E eu retomei a idéia do taco de beisebol. Na verdade eu queria um desses porque, quando me aposentar, meu sonho é percorrer as ruas do Rio de Janeiro de madrugada, com o farol do carro apagado e com uma máscara preta. Toda vez que encontrar um macumbeiro sacrificando bichinhos vou descer o cacete. Também vou seguir os crentes que ficam gritando no trem até suas casas e bem cedo, ao saírem para pegar o trem, apanharão. Estendo minhas cacetadas aos ignorantes – esta merecia apanhar até entrar em coma.

Inútil! A gente somos inútil!
Inútil! A gente somos inútil!

Inútil!
Inútil!
Inútil!

P.S. I: O taco de beisebol só existe no meu pensamento. Se começarem a aparecer crimes desse tipo, não tenho nada a ver com isso. No máximo, fui eu quem deu a idéia.

P.S. II: Post scriptum, em latim, significa literalmente “escrito depois”. Originariamente, indicava algo que quem escreve acha necessário acrescentar a uma carta após o seu encerramento (fecho, assinatura, etc.).

P.S. III: sinônimos de obséquio : gentileza, favor, serviço, benevolência, ajuda .

P.S. IV: saí dali e tomei um banho de sal grosso com arruda quando cheguei em casa. Vai que a ignorância seja contagiosa…

P.S. V: enquanto estivermos no período de transição da reforma, continuarei colocando os acentos, tremas e hífens onde bem entender.

Adriana Freitas de Carvalho – blog Bizarrices

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