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Relações promíscuas e a vergonha do jornalismo

Imagem: http://inconfidencial.com.br“Dá aí cem, ou cinquenta contos?” – diz, costumeiramente, sem cerimônia alguma o repórter semianalfabeto, após entrevistar qualquer autoridade, seja o governador, secretário de Estado, deputado estadual, ou federal, senador, prefeito, ou vereador. Esse “repórter”, aliás, é conhecidíssimo no meio jornalístico roraimense, pela falta de escrúpulos (e por que não dizer, de vergonha?) com que pede dinheiro descaradamente aos seus entrevistados mais abastados, apesar de receber, todo mês o salário da emissora de TV onde trabalha. Atualmente, é o maior jabazeiro que existe no Estado e não faz questão de esconder tal condição.

Essa atitude envergonha radialistas e jornalistas que procuram trabalhar com ética e profissionalismo (a maioria, aliás). Mas, a quem recorrer contra esses cânceres? Ao sindicato dos Jornalistas Profissionais de Roraima (Sinjoper)? O que o Sindicato pode fazer, diante da lambança que o Supremo Tribunal Federal (STF) fez, revogando a obrigatoriedade da exigência do diploma de nível superior do curso de Jornalismo para o exercício da profissão? Cabe ressaltar que, em defesa do diploma, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) continua na luta e tem o total apoio deste blog e seu idealizador.

Apesar disso, ao Sindicato cabe, sim, no mínimo, exigir da direção da emissora, ou do editor-chefe que tome uma providência para impedir que esses “profissionais” continuem envergonhando a categoria. E a nós, jornalistas de fato e de direito, resta esperar que o Congresso Nacional finalmente aprove a PEC do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) que exige diploma de curso superior de Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista.

Incentivo à promiscuidade

Infelizmente, essas cenas tornaram-se bastante comuns não apenas na rua, ou nos gabinetes das autoridades. As Assessorias de Imprensa, ou de Comunicação, também são locais cada vez mais frequentadas por jabazeiros em busca de algum favor, ou benefício próprio. Nada contra quem procura melhorar sua condição de vida, ou da emissora que representa, desde que seja dentro da legalidade, da ética, da responsabilidade.

Eugênio Bucci, em seu livro  “A Imprensa e o Dever da Liberdade”, faz uma análise dessa questão, discorrendo sobre ética, o papel da imprensa e as relações desta com o poder.  “Os jornalistas devem recusar qualquer vínculo, direto ou indireto, com instituições, causas ou interesses comerciais que possa acarretar – ou dar a impressão de que venha a acarretar – a captura do modo como veem, relatam e se relacionam com os fatos e as ideias que estão encarregados de cobrir”, diz ele.

Os “ratos” do jornalismo são alimentados por secretários, ou chefes de Assessorias de Comunicação que, na maioria das vezes se veem reféns, ou sem saída, diante das ameaças de ver seus assessorados expostos na imprensa de forma preconceituosa, vexatória, ou distorcida. Várias são as reclamações de autoridades sobre matérias que não condizem com a realidade publicadas em jornais, ou veiculadas no rádio ou na televisão. É muito comum se ouvir: “Não disse isso. O repórter interpretou errado as minhas declarações”. Às vezes, até pode ter sido mesmo erro de interpretação, mas na maioria dos casos houve má fé, um recado direto: “Ou paga, ou continuremos batendo”.

Certa vez, ao abodar uma senhora, proprietária de um restaurante bastante frequentado em determinada época do ano, ouvi dela o seguinte questionamento: “Vou pagar quanto por esta entrevista?”. Estranhei a pergunta, mas respondi a ela que não pagaria nada, porque eu estava apenas apurando informações sobre o movimento dos restaurantes da redondeza em comparação com o ano anterior e que o jornal já me pagava salário. Ela, então, disse: “Ah, bom! É que o último repórter desse jornal que veio aqui, me cobrou cem reais pela entrevista que dei”. Fiquei vermelho de vergonha, mas expliquei a ela que essa prática, infelizmente, é de maus profissinais que envergonham a categoria.

“Para melhor cumprir seu papel de levar informações ao cidadão, a imprensa precisa fiscalizar o poder – e o verbo fiscalizar carrega, aqui, o sentido de vigiar, de limitar poder. Sem ela, não há como se pensar em limites para o exercício do poder na democracia. Portanto, não é saudável nem útil a imprensa que se contente com o papel de apoiar os que governam. Não é saudável, não é útil, nem mesmo imprensa ela é”, afirma Bucci mais adiante.

O Bucci diz, na verdade, é que a imprensa precisa de isenção para poder trabalhar com maior liberdade. Entretanto, infelizmente a promiscuidade é bastante incentivada por secretários de comunicação, ou assessores de imprensa igualmente sem escrúpulos que, na minha opinião, são do mesmo nível, ou saíram da mesma “escola” dos jabazeiros de plantão. Manter jornalistas na folha de pagamento (pagando valores às vezes o dobro do salário dos profissionais da própria Secretaria, ou Assessoria) apenas para evitar que estes falem mal da instituição é atitude, no mínimo, indecente.

Carlos Alberto Di Franco,  doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra e professor de Ética é bastante contundente nessa questão, ao defender a ética e a informação livre e independente, no artigo “O dever da liberdade“.

“O que fazer quando o presidente da República chama senadores de pizzaiolos, faz graça com a corrupção e incinera a ética no forno do pragmatismo e da suposta governabilidade? O que fazer quando políticos se lixam para a opinião pública? Só há um caminho: informação livre e independente. Não se constrói um grande país com mentira, casuísmos e esperteza. Edifica-se uma grande nação, sim, com o respeito à lei e à ética. A transparência informativa, de que os políticos não gostam, representa o elemento essencial de renovação do Brasil. Governos passam, mesmo quando navegam em mares de votos, mas as instituições democráticas ficam”, enfatiza Di Franco.

Não ao jabá! Caça aos jabazeiros! Embora arriscando a própria pele, batendo de frente com muita gente que se acha dona da verdade e acima do bem e do mal, continuarei combatendo essa praga que se alastrou pelas redações e secretarias de comunicação e assessorias de imprensa. Luta, aliás, iniciada ainda quando cursava Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) na Universidade Federal de Roraima (UFRR), de onde saiu (e continua saindo) muita gente boa, muitos jornalistas éticos, respeitados e competentes (alguns, inclusive, já no mercado de trabalho, enquanto outros estão sem emprego porque algumas vagas continuam ocupadas por pseudoprofissionais do nível do início deste texto).

PS: Enquanto escrevia este texto, um cidadão se sentiu ofendido e ainda teve a “cara de madeira” de sair em defesa dos jabazeiros. Pode? Segundo o STF, pode.

Wirismar Ramos – da Redação

  • Kkkkkkk….meu caro Ramos, seria hilário se não fosse trágico. O “jabazeiro”, nada mais é que um sem noção travestido de jornalista, que agora te o aval da justiça. Cabe a nós, jornalista de fato e de direito, combater essa anomalia profissional, porque se formos esperar pelas entidades que nos representam…cansei!!!!

  • Infelizmente, muitos jornalistas ‘pecam’ quando começam a cobrar alguma ‘truta’ para escrever uma ou outra matéria. É lamentável também, saber que esse tipo de pessoa foi a maior beneficiada com a queda da obrigatoriedade do diploma para Jornalismo. Pelo visto, teremos que aguentar ver ou conviver com essa gente por muito tempo,a menos que algum milagre na Justiça aconteça.

  • É meu caro Wirismar….
    Pior do que os jabazeiros descarados, tem aqueles que se dizem ético e pregam a verdade, moralidade e profissionalismo, mas recebe seu trocada de determinados deputados, assessorias, para falar ‘bem’. Isso que é o pior…
    Os jabazeiros assumidos, sabemos quem são. Sabemos da falta de caráter e despreparo e sem noção do que fazem.
    Agora, O QUE É DE MATAR, são os que pedem na surdina…
    Se julgam os paladinos da verdade…
    Mas na verdade são tão corruptos e sem escrúpulos quanto os citados no texto.

  • Meu Deus! Se fosse aqui no RJ eu poderia pagar 50 pilas para um manezinho qualquer do morro dar um fim nesse cara e o assassino ainda sairia feliz! Já que não podemos bater com um taco de beisebol nele (porque muitos já sabem que isso é idéia minha), devemos divulgar o sujeito como picareta, com fotos, nome completo e RG. Para que outros mais afoitos façam o serviço por nós quando reconhecer essa corja nas ruas…

  • É uma situação absurda!Infelizmente, isto não se restringe apenas a Roraima..É necesserário ética e profissionalismo, para o jornalismo crescer e ser devidamente valorizado.Devemos nos unir, na tentativa de coibir que pessoas sem ética e moral, tenham espaço na imprensa brasileira!

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