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RÉVEILLON: Descaso do Governo com pacientes e plantonistas do Pronto Socorro

Lendo atentamente as informações divulgadas  pela assessoria da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), antes e depois do Réveillon, sobre como seria e como foi o plantão dos profissionais de saúde no setor de emergência e trauma do Pronto Socorro Francisco Elesbão (HGR), não consegui guardar só pra mim o sentimento de indignação e revolta que tomaram conta do meu coração ao ver que na prática, a teoria de que o serviço público de saúde estaria preparado para atender o aumento da demanda, constatei que na prática, essa teoria teve uma grande parcela de propaganda enganosa.

Que fique bem claro que os jornalistas que estão na Assessoria da Secretaria apenas reproduzem e fazem chegar à sociedade informações que lhes são repassadas pelos diretores e responsáveis pelos setores. Assim como eu e você, eles também são levados a acreditar que tais informações são verdadeiras e condizem com a realidade.

Em momento nenhum eles distorcem, fantasiam ou montam cenários para favorecer a Secretaria. Diga-se de passagem, conheço bem e tenho profunda admiração pela equipe que está à frente da ASCOM da SESAU porque são pessoas de bem, de caráter e que lidam com a responabilidade que assuiram com a mais pura transparência e respeito. Inclusive lamento o fato de eles serem desrespeitados e induzidos por seus ‘superiores’ a repassar para a imprensa informações que na prática, em algumas situações, não se constatam.

Na teoria, segundo a Sesau, no período festivo (Natal e Ano Novo), o HGR iria “funcionar com equipes extras de plantão. Mais servidores (enfermeiros, médicos e técnicos de enfermagem) estariam de prontidão para atender a população.

Não seria leviana de afirmar que essa informação teria sido falsamente anunciada apenas com o objetivo de passar para a opinião pública a imagem de que o serviço público de saúde se preocupa com o cidadão e está de prontidão para atender a população. Prefiro pensar na hipótese de que as equipes escaladas para o plantão resolveram deixar de comparecer ao chamado para socorrer vidas, porque preferiram  curtir os últimos instantes de 2009 ao lado de entes queridos.

Porém, não posso me calar e deixar de levar ao conhecimento público, em especial das autoridades, que na prática, os gestores do sistema público não cumpriram o que disseram. Posso falar, com conhecimento de causa e testemunha ocular, da madrugada do dia 1 de janeiro de 2010, mais precisamente entre 2h30 da manhã e 7h30 da manhã, período que fiquei no Pronto Socorro, acompanhando minha mãe, que teve uma complicação no quadro de saúde devido a um delicado histórico de hipertensão e diabetes.

Assim como a maioria das pessoas, ainda prefiro acreditar que quando levam ao conhecimento da sociedade uma informação quanto a um serviço que está ou será prestado, isso se cumprirá.

Mas, em se tratando do atendimento emergencial no HGR nas primeiras horas do dia 1 de janeiro de 2010, fiquei perplexa ao constatar a distância entre  teoria e realidade.

Nas informações que a imprensa recebeu havia a garantia que a  direção  já havia tomado providências para manter regularizado o abastecimento médico-hospitalar durante o final do ano e foi preparada escala de plantão extra, que envolve maior contingente de profissionais médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, além de servidores da área administrativa.

“A partir da noite do dia 31 de dezembro até o dia 03 de janeiro, domingo, o Grande Trauma do Pronto Socorro Francisco Elesbão terá três médicos por plantão (12 horas cada), um enfermeiro e 12 técnicos de enfermagem. No Pronto Atendimento,  a média será mantida em cinco médicos por plantão. Somam-se a esse quantitativo, dois enfermeiros e 12 técnicos de enfermagem para cada plantão”, dizia o release enviado à imprensa.

Lamentavelmente, pelo menos no período que estive no Pronto Socorro, entre 2h30 da manhã e 7h30 da manhã do primeiro dia do ano, não foi o que constatei. Pelo contrário.  Havia apenas um médico clínico geral na emergência, setor onde minha mãe foi atendida, e  dois médicos no grande trauma, para onde a equipe do Samu 192 levava as dezenas de jovens feridos, esfaqueados, atingidos a pedradas, acidentados e vitimas de outras  formas de violência.

Pior ainda: havia apenas uma enfermeira para medicar os  pacientes.
Essa pobre e dedicada senhora  estava sozinha na sala da medicação, já exausta e em condições desumanas de trabalho porque em alguns casos, por falta de pessoal, ela tinha que sair da sala de medicação e ir até a farmácia em busca do medicamento prescrito para aplicar nos pacientes.

Enquanto  isso, alguns deles, aos gritos, descarregavam toda a irritação na pobre senhora que apenas dizia:”estou atendendo por ordem de chegada. Todas são situações de emergência, mas estou sozinha e vu atender a todos”.

Ao chegar na sala de medicação com minha mãe, me deparei com uma cena que por sorte foi cômica, mas poderia ter sido trágica: uma jovem moça da classe média alta da cidade, de família influente, acometida de um coma  alcoólico, tinha caído três vezes correndo risco de sair do HGR morta vítima de um traumatismo ou outras partes do corpo quebradas.

Ela ficou alguns instantes sozinha porque o amigo que a acompanhava precisou se ausentar para localizar familiares que fossem socorrer e acompanhá-la. Quero deixar claro que não foi negligência ou culpa da única enfermeira que estava atendendo. A jovem senhora tinha que aplicar injeções ou administrar outros medicamentos na veia dos demais pacientes e era impossível ficar de ‘babá’ da mocinha bêbada.

O que pacientes e acompanhantes não conseguiam perceber é que essa nobre enfermeira estava sendo vítima, assim como os pacientes, do desrespeito e descaso dos gestores públicos que não tiveram a preocupação de acompanhar e fiscalizar, se os profissionais escalados estavam cumprindo o seu juramento e atendendo ao chamado de estar apostos, salvando vidas em uma das  mais tensas,  movimentadas madrugadas que anunciava a chegada de 2010.

Ah, acho que ‘esses profissionais’ estavam tão ocupados estourando  champanhes e vinhos especiais para celebrar a chegada do novo ano, e por isso não tinja cabeça pra  lembrar que àquela hora havia pessoas entre a vida e a morte, cuja oportunidade de continuar vivendo estava à mercê da própria sorte. Ainda bem que Deus existe, é pai, amor e cuida de todos, sem fazer acepção de pessoas.

Bom, já falei que só tinha um médico e não cinco como anunciado na emergência; apenas dois maqueiros que de tanto movimento não puderam seuqer desfrutar das suas horas de repouso. Enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio  nem se fala. Esses profissionais também estavam em quantidade bastante reduzida. Tanto que  até os porteiros se solidarizaram com os colegas, especialmente os do Samu, que a todo instante lutavam contra a morte para salvar as vidas que levavam para receber cuidados médicos. Minha mãe foi uma delas. Não fosse a eficiência, dedicação e amor ao próximo que fazem a diferença no atendimento a pessoas de Norte a Sul da cidade, talvez minha mãe não estivesse viva.

Também não posso deixar de contestar a afirmação que o abastecimento de medicamento foi reforçado.

Vi, ninguém me falou, pacientes em situação bastante crítica, no desespero de encontrar ar para respirar, ainda que artificial, precisando de inalação e eram dispensados porque não tinha material. ‘Falta material. Não estamos fazendo inalação”,  afirmavam os atendentes. Minha mãe, que em função do complicado quadro de hipertensão e diabetes ainda foi acometida com uma pneumonia, só fez inalação no dia seguinte porque comprei o kit.

O raio X e a ultrassonografia também não estavam funcionando. Os profissionais tiveram que improvisar, nos casos que precisam despir alguns  pacientes machudados, e usavam a força para rasgar as roupas porque não tinha lâmina de bisturi. Também não tinha  gel de xilocaína.

Ainda hoje, no  HGR a equipe trabalha administrando desde a falta de  algodão, álcool, lençóis para os leitos,  a outros medicamentos para pacientes hipertensos como carverdilol,  cardilol, tensaliv, diurix. Aliás, esses que citei, especificamente fazem parte do ‘cardápio’ de minha mãe e nem mesmo na farmácia do Coronel Mota consigo encontrar. Tem mais de cinco meses que ouço a mesma resposta quando vou ao Coronel Mota em busca desses medicamentos: “Não temos”.

Eu, com a graça de Deus, ainda posso comprar os referidos medicamentos para manter o tratamento de minha mãe. Mas sempre que ouço essa negativa, me pego a pensar nas pessoas desprovidas de recursos e acometidas das mesmas enfermidades.

Ainda bem que assim como foi nos dias em que esteve na terra, Jesus Cristo continua fazendo milagres, curando e restaurando as vidas, gratuitamente, sem nada cobrar, porque caso contrário, grande parte da população carente de Roraima, especialmente os idosos, já teriam morrido pela falta de comprometimento dos gestores no serviço público de saúde.

Fico impressionada com a hipocrisia de alguns ‘profissionais’ que tentam enganar a população ao  insistem em construir uma imagem positiva encima de propaganda enganosa, fazendo  marketing de um serviço precário, desumano, que está deixando muito, mas muito mesmo, a desejar.

Tive vontade de esbravejar, gritar pros quatro cantos de Roraima quando recebi ontem outra informação da Secretaria de Saúde que dizia: “Neste feriado prolongado, entre os dias 31 de dezembro e 4 de janeiro, 1.350 pessoas foram atendidas no Pronto Socorro Francisco Elesbão e Pronto Atendimento Airton Rocha. Destas, 856 deram entrada apresentando algum problema mais simples, como um mal estar, por exemplo, o restante precisou ser atendido devido a acidentes ou agressões. Se comparado ao ano passado, onde 1.687 pessoas deram entrada, a direção acredita que o planejamento e esforço deste ano fizeram com que durante o fim de semana, os profissionais conseguissem atender a demanda existente”. Me perdoem, mas não vi planejamento e esforço, só mesmo dos poucos que estavam de plantão que tiveram que se desdobrar pra evitar o pior.

O mais hilário é que a direção do  Pronto Socorro ainda reforçou nesta segunda-feira que “ao todo foram seis equipes diárias preparadas para atender a demanda da unidade. Volto a afirmar: não foi isso que vi na madrugada do primeiro dia de janeiro deste ano.

E olha que pelos dados da própria Secretaria, os bravos, guerreiros,  heróis e poucos homens e mulheres que trabalharam no plantão do qual participei como acompanhante de paciente realmente tiveram muito, muito, muito serviço.

Estatísticas da Secretaria informam que desde a quinta-feira, 31, até esta segunda-feira, 4, 108 pessoas foram atendidas vítimas de acidentes de trânsito, sendo que 80% delas eram motociclistas. Enquanto isso, no ano passado foram registradas 12 entradas de pessoas vítimas de arma branca e este ano 16 pessoas foram atendidas. Quanto a agressões físicas, foram 28 contra 32 deste ano.

Quanto às  estatísticas  divulgadas pela Secretaria acho que representam mesmo a realidade porque vi uma madrugada infernal para feridos e acompanhantes a ponto de ter  paciente acidentado, com ferimentos leves, ser mandado pra casa sem sequer ter as feridas lavadas ou tratadas. Não porque os médicos e enfermeiros tivessem agindo com negligência; é que não tinha gente suficiente pra fazer o serviço e era preciso priorizar os casos que precisavam de cirurgias e corriam risco de morrer.

Agora, o mais revoltante  e inaceitável  foi ver o governador José de Anchieta fazendo ‘média’ com as crianças que nasceram na Maternidade no 1º dia do ano, enquanto algumas famílias ainda choram a perda precoce de seus entes queridos que tiveram seus últimos instantes de vida na emergência do HGR e não receberam o tratamento digno e humano como mereciam.

Fiquei a pensar: por que será que o governador não teve a ideia de ‘visitar’ também o HGR pra saber como foi a chegada do novo ano para quem precisou de socorro médico no Réveillon?

Eudiene Martins – editora do www.jornaldoradio.com.br – E-mail: eudiene@gmail.com

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