SUL DO ESTADO – Situação de vicinais é caótica

A situação das pontes é apontada como caótica na maioria dos casos. Foto: divulgação
As estradas vicinais da região sul de Roraima estão intrafegáveis, com pontes quebradas e a previsão é de que tudo pode piorar até a chegada do próximo inverno. Para piorar a situação, mesmo quando o Governo do Estado destina os recursos, as empresas contratadas – em regra – não concluem as obras ou fazem um serviço de qualidade duvidosa.
Em Caroebe, São João da Baliza, São Luiz do Anauá e Rorainópolis até mesmo as vicinais bem povoadas estão quase intrafegáveis com a previsão de que se nada for feito antes do inverno (previsão é abril de 2010) os produtores e demais moradores daquela região enfrentarão um verdadeiro colapso.
O FatoReal esteve na região e fez um levantamento das situações mais graves, sendo que em todas as vicinais visitadas, com raras exceções, a previsão é de catástrofe até o inverno, uma vez que o Governo do Estado não tem sinalizado com um programa de recuperação. Além disso, os municípios não possuem condições de fazer a recuperação, sobrando assim para o Governo Federal essa improvável missão, em face da crise financeira que o País atravessa.
Veja a situação das vicinais por município:
Caroebe
A maioria das vicinais está em estado péssimo e mesmo aquelas que o Governo autorizou a recuperação, em regra, o serviço não foi feito com boa qualidade e em alguns casos as obras de recuperação não foi concluída. A vicinal 35, por exemplo, foi recuperada, mas os cerca de 2 km que adentra ao Município de Baliza ficaram sem recuperação e a Prefeitura teve que fazer um aterro para manter a trafegabilidade.
São João da Baliza
A maioria das vicinais de Baliza está em situação crítica. Em algumas, entretanto, os moradores afirmam que caso não sejam feitas obras mínimas de recuperação nas primeiras chuvas a região se transformará num caos.
Na vicinal 26, duas pontes estão quase caindo e uma desabou há 30 dias e ainda não foi recuperada. Os produtores fizeram um atalho por dentro do rio. O Governo anunciou que tinha autorizado uma empresa a recuperar a vicinal e as pontes, mas até hoje os serviços não tiveram início.
Na vicinal 29, moram cerca de 50 famílias que estão convivendo com a pior situação da estrada desde que foi inaugurada, com o agravante de que a maioria das pontes ameaça cair. A situação já dura alguns anos e em 2008 um produtor chegou a queimar uma ponte em protesto. A vicinal 30 é a exceção, em meio ao caos que domina o sul do Estado, ela está totalmente recuperada até às margens do Rio Caroebe.
EM SÃO LUIZ – Empresa não concluiu recuperação de algumas vicinais
A exemplo dos demais municípios da região sul, São Luiz do Anauá também terá extrema dificuldades de manter a trafegabilidade de suas vicinais até o inverno e bem pior durante e depois do período de chuvas de 2010. As piores situações são as vicinais 18, 19, 20 e 22.
Dentre as vicinais visitadas pelo RH, a vicinal 19 é a que se encontra em pior estado. Segundo os moradores, faz três ou quatro anos que a vicinal não é recuperada.
Na vicinal 20, a reclamação dos moradores é que a empresa que foi contratada para recuperar a estrada abandonou a obra e deixou os moradores na mão. O prazo de conclusão da obra na vicinal 20 acabou e os produtores agora cobram a conclusão dos serviços.
Empresa abandona obra

Na Vicinal 20, outra obra inacabada e sumiço da empresa. Foto: divulgação
Na vicinal 22, além da empresa não ter concluído a obra, as pontes que seriam substituídas por bueiros estão em situação bastante precária. A reportagem apurou, no entanto, que a empresa retomou os trabalhos da troca de pontes por bueiros, mas a recuperação da vicinal 22 não foi concluída e nos trechos em que supostamente foi entregue a qualidade não é das melhores.
Rorainópolis enfrenta maiores problemas
O maior Município da região sul do Estado (24.466 habitantes, segundo dados de 2007 do IBGE, para uma área de 33.594 km²) enfrenta diversos problemas com suas estradas vicinais. Os problemas são agravados porque muitas vicinais não são reconhecidas pelo Governo Federal, por serem “travessões” (ligações entre vicinais reconhecidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Por essa razão, apenas o Estado e o Município podem efetuar a recuperação e a construção/recuperação de pontes.
Além das vicinais enfrentarem problemas, casos excepcionais afligem os moradores e as autoridades locais. A chamada “estrada perdida”, cerca de 1 km (Braço esquerdo da vicinal 1), onde moram várias famílias, está quase intrafegável porque a empresa que fez a recuperação da vicinal 1 e deveria ter recuperado este pequeno trecho, segundo os moradores, desmontou acabamento e foi embora sem resolver esse problema.
Através de um travessão, a vicinal 1 de Rorainópolis dá acesso para a vicinal 12 da Vila Moderna (São Luiz do Anauá), mas este trecho de cerca de 8 km está em péssimo estado. Neste caso, além de ser importante porque dá acesso a outro Município, dezenas de famílias enfrentam dificuldades.
Alunos não conseguem chegar até a escola
A vicinal Progresso, na verdade, é um “braço” esquerdo da vicinal 16, após a 45, esta que é outra vicinal não-oficial. Nesta vicinal, ocorreu um fato curioso: as pontes foram feitas em 2008, mas até agora a estrada não foi recuperada. Nesta região, cerca de 10 alunos estão sem escolas porque os ônibus do transporte escolar não conseguem trafegar. Quem tem motocicleta estuda, quem não tem perderá o ano.
As vicinais 7, 17 e 18, na região de Nova Colina, são apontadas pelos moradores como as piores. Próximo à Escola Francisco de Assis, na entrada da vicinal 3, existe um trecho de picadão chamado “Bucho da Cobra”, onde cerca de 20 famílias residem sem a menor condição de trafegabilidade. “Vários governadores já prometeram fazer a estrada, mas até hoje só ficou na promessa.
Já a vicinal 1, conhecida como “Rabo da Cobra”, foi mal recuperada e o seu final, nas proximidades da divisa com São Luiz do Anauá, também está em péssimas condições.
Duas grandes vicinais em situação difícil

Paulo Ferreira: “Nem lembro quando a estrada foi recuperada”. Foto: divulgação
A vicinal 3 nasce cerca de 9 km após a sede do Município de Rorainópolis e é uma das mais povoadas. Um destes moradores é Paulo Ferreira do Nascimento. Há 27 anos morando na vicinal, ele afirmou que nem lembra mais quando a estrada foi recuperada pela última vez.
Outro histórico morador da vicinal 3 é Osvaldo Lopes Macedo, 74 anos, conhecido como “Nenê Cacau”. Ele disse que a estrada nunca tinha ficado da maneira que se encontra. “Nos últimos três anos sofremos muito”, afirmou. Ele teme que com a chegada do inverno em abril de 2010, dezenas de famílias fiquem isoladas.
Situação da 19 “desanima” produtores
O final da vicinal 4 é marcado por uma longa tradição de problemas com trafegabilidade. Não precisa nem ser rigoroso para que o inverno deixe os cerca de 2 km da estrada completamente alagados. Por diversas vezes, em mais de uma administração, governadores já prometeram “erguer” o leito da vicinal, mas até hoje o problema persiste. O mesmo problema enfrentado pela vicinal 4 atinge a 16, sendo necessário aumentar a base da estrada para evitar alagamentos.
Outra vicinal bastante povoada é a 19. A estrada é longa e é uma das piores do Município hoje. Manoel Bonfim Rodrigues, 48, é um desanimado produtor rural. Há 12 anos na região, ele disse que nem tem mais esperanças que a estrada seja recuperada ainda este ano. Ele tem um lote próximo a seu irmão, o também produtor Antonio Cesário Melo Neto. Para ele, dificilmente haverá condições de recuperar a maioria das vicinais, mas pelo menos aquelas onde “a coisa está feia” como a 19, deveriam ser recuperadas.
Morando no km 7 da vicinal 19 há 10 anos, o goiano Valdivino Honório da Silva, 70, vive com sua esposa Silvani Maria Ribeiro Santos, 69. De dentro de sua casa, mostrou as crateras e o estado em que se encontra a vicinal.
No km 10 da vicinal 19, há outro exemplo da dificuldade que os moradores enfrentam: a maioria das pontes ainda é “pinguela” (toras de madeira colocadas sob o leito dos rios e pequenos igarapés. João Freitas da Silva, 49, mora há apenas três anos na região, mas já enfrentou vários dramas. As “pinguelas” que ficam há cerca de 50 metros da casa do agricultor foi construída por ele e seus vizinhos na Sexta-Feira Santa do ano passado, mas não deve aguentar até o próximo inverno.
Todas as vicinais estão na mesma situação
Rorainópolis possui cerca de 60 estradas vicinais e, em todas elas, há algum tipo de problema para resolver. Na vicinal 28, os produtores enfrentam um curioso dilema: uma das pontes foi construída e reconstruída várias vezes, mas sempre num tamanho menor que o ideal. Resultando: até hoje, por mais ameno que seja o inverno, o pequeno igarapé alaga a vicinal e a ponte, deixando dezenas de famílias sem estrada.
A vicinal 29 é um “travessão” da 14 e foi recuperada recentemente, mas os produtores afirmam que a obra foi de péssima qualidade e que em alguns trechos até ficou pior. A vicinal 34 também tem cerca de 15 km e toda sua extensão está em situação difícil.
A vicinal 36 tem cerca de 15 km, dos quais, 8 km nunca receberam nenhuma obra, apenas o picadão pelos próprios moradores.
O prefeito em exercício de Rorainópolis, Sinésio Mamedes Arantes, explicou que anualmente a Prefeitura recebe apenas cerca de R$ 60 mil a R$ 80 mil, provenientes da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), para aplicação de estradas vicinais e pontes.
Após paralisação de 90 dias, empresas voltam a campo
De acordo com o Secretário de Estado da Infraestrutura, Carlos Bríglia, as obras de recuperação das estradas vicinais tiveram que ser paralisadas por um período de 90 dias (nos meses de julho, agosto e setembro), devido ao inverno que, apesar de não ter sido tão intenso na Capital, esteve presente no interior de forma contundente.
“Nesse período, aproveitamos para fazer um levantamento completo das vicinais que estão em situação crítica e agora estamos retornando as obras que estavam paralisadas. A credito que até o final do ano teremos concluído os trabalhos iniciados e, no máximo até janeiro do próximo ano, daremos início às novas frentes de trabalho identificadas, para que até maio, período previsto para a chegada do inverno em Roraima, tenhamos concluído a recuperação das vicinais em todo o Estado.
Carlos Bríglia disse que o Governo do Estado está trabalhando para garantir os recursos necessários para a recuperação das estradas vicinais, com recursos da própria SEINF alocados no Orçamento do Estado, além de emendas parlamentares dos deputados estaduais. “O Governo do Estado destinará cerca de R$ 30 milhões para a recuperação de estradas vicinais e pontes”, anunciou.
Wirismar Ramos – da Redação
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Blogueiro, jornalista e radialista. A sequência é intencional e representa o nível de importância da atuação de Wirismar Ramos no mundo do webjornalismo. Pós-graduado em Comunicação Social - Assessoria de Imprensa e Novas Tecnologias, Wirismar Ramos costuma dizer que não suporta, em sua vida profissional, atitudes que demonstrem falso moralismo, falsidade, traição, incompetência e preguiça.