Transporte coletivo – a revolução
Na segunda metade dos anos 80, ali não havia outra alternativa: ou ia de ônibus, ou à pé, já que naquele momento de minha adolescência, eu ainda não tinha nem uma bicicleta velha para me deslocar.
Naquela noite, como tantas outras vezes, o ônibus atrasou e eu chegaria à escola, se tivesse sorte, já no segundo tempo de aula. Entretanto, devido à precariedade em que se encontrava, o coletivo quebrou antes de eu chegar ao meu destino. Não havia mais jeito. Tive que voltar para casa, frustrado por ter perdido um dia de aula e por não ter outro meio de chegar ao meu destino a não ser aquele sistema sucateado de transporte coletivo: ônibus velhos, caindo aos pedaços, com buracos enormes no assoalho e, na maioria das vezes, sem cadeiras.
Como eram poucos, os ônibus só andavam superlotados, colocando em perigo diariamente centenas de pessoas (aliás, vários acidentes aconteceram) e isso não incomodava nem um pouco às autoridades locais. Reclamações eram ouvidas por todos os lados, a imprensa denunciava, mas nada de diferente acontecia.
Mesmo com todas essas dificuldades, eu agradecia à Deus pela oportunidade de poder estudar à noite, já que durante o dia trabalhava numa oficina de marcenaria para poder sustentar os meus gastos com roupa e material escolar e, às vezes, pagar um cineminha no final de semana. Isso quando não estava engajado com as atividades comunitárias da paróquia, cujo padre responsável era o meu padrinho de crisma, Edilberto Sena.
Lembro-me bem que a atividade comunitária ali era atuante, com base numa política de luta pela melhoria da qualidade de vida da população à qual estava vinculada e tudo isso sem que houvesse qualquer interferência externa, ou interesses escusos. A comunidade era unida e, quando convocada para ir à luta em busca de reivindicar algum benefício, todos se mostravam dispostos.
Cansada de tanto enviar ofício para a Prefeitura e Câmara de Vereadores, sem que nenhuma resposta fosse dada, a nossa comunidade se reuniu e decidiu tomar uma atitude radical: a partir de uma data escolhida na assembléia geral, nenhum ônibus velho entraria mais no bairro.
Como o bairro fica à margem esquerda da estrada do Aeroporto, naquela época havia apenas uma entrada e era exatamente ali que a comunidade estaria apostos para fazer valer, a qualquer custo, o que havia sido decidido na Plenária. Divulgado amplamente pela imprensa, as autoridades urbanas não deram importância ao movimento, pensando se tratar apenas de balela.
Triste engano: na data marcada, às 5h da manhã, a comunidade em peso estava na entrada do bairro, formando um cordão de isolamento impenetrável. Quando o primeiro ônibus da manhã chegou, o motorista foi orientado a retornar porque o protesto não era contra ele que, como nós, também era um simples trabalhador, mas sim contra o sistema e o poder público que nada fazia para melhorar de transporte coletivo.
O segundo motorista, no entanto, não teve a mesma compreensão que o primeiro e tentou forçar passagem. Alguns comunitários se revoltaram e o ônibus foi apedrejado. Vendo que não estávamos para brincadeira e para não se machucar, o motorista saiu correndo. Não lembro quem fez, mas num instante, o veículo já estava em chamas e rapidamente foi consumido pelo fogo. Ninguém se feriu.
Com a mesma rapidez também chegou a tropa de choque da Polícia Militar, que caiu de pau em cima de nós. Alguns menos afortunados que eu receberam cacetadas, chutes e pontapés da polícia. Uma dezena de manifestantes foi parar na delegacia e por lá permaneceram por uns dois dias. Mas todo o sacrifício valeu à pena: no dia seguinte o bairro e toda a região circunvizinha passaram a ser atendidos por ônibus novos e modernos.
Não sei como está hoje o transporte coletivo naquela cidade, mas o gesto de protesto foi único e marcou época, mostrando a força da união comunitária e servindo de exemplo para os demais bairros, ou mesmo outras cidades que sofriam com os mesmos problemas. Hoje mais ponderado e menos engajado, sinto orgulho de ter participado dessa pequena, mas atuante comunidade.
Esse fato serve para mostrar que, quando pressionado, o poder público age de acordo com as necessidades da população. Recursos públicos para isso existem. O que falta, na maioria dos casos, é vontade política para fazer acontecer. É comum os detentores do poder deixarem para mostrar serviço em ano de eleição. Em alguns casos, nem isso.
Em Boa Vista, por exemplo, o sistema de transporte coletivo está sucateado há anos e nem em época de eleição a Prefeitura se dispõe a resolver o problema. Os poucos ônibus que circulam pela cidade estão jogados às traças, além de andarem sempre atrasados. Os usuários há tempos que trocaram o ônibus pelo táxi-lotação que, de transporte alternativo, passou a ser o principal.
Será que não está na hora de a população se unir em suas bases, nas suas comunidades, para tomar uma atitude? Como o poder público só costuma agir sob pressão, que assim seja. Ou será que eu é que estou errado e o transporte coletivo de Boa Vista é semelhante ao de Curitiba-PR, que conta com um sistema tipo metrô de superfície, incluindo canaletas exclusivas, estações-tubo para o embarque e desembarque de passageiros e os ônibus biarticulados com ar condicionado e capacidade para 270 passageiros, além de possuir tarifa integrada, permitindo deslocamentos por toda a cidade com a mesma passagem?
Wirismar Ramos – da Redação
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Blogueiro, jornalista e radialista. A sequência é intencional e representa o nível de importância da atuação de Wirismar Ramos no mundo do webjornalismo. Pós-graduado em Comunicação Social - Assessoria de Imprensa e Novas Tecnologias, Wirismar Ramos costuma dizer que não suporta, em sua vida profissional, atitudes que demonstrem falso moralismo, falsidade, traição, incompetência e preguiça.